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24|06|2014


A importância da bula

A não leitura pode trazer sérios prejuízos individuais e sociais, sendo o principal a falta de informação sobre os riscos que determinado medicamento pode apresentar

Para descobrir os hábitos de leitura da bula e, considerando que ela é de suma importância para o uso racional de medicamentos, o Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico (ICTQ) realizou uma pesquisa que apresenta a relação que o usuário mantém com essa leitura. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), esse documento legal sanitário contém informações técnico-científicas e orientadoras sobre medicamentos. Ele deve ser disponibilizado aos usuários em linguagem apropriada, ou seja, de fácil compreensão, nos estabelecimentos com atividade de dispensação de medicamentos, conforme lei vigente. Esse instrumento traz informações preciosas sobre a ação do medicamento, indicações, riscos, modo de uso, reações adversas, conduta em caso de superdose, cuidados de conservação, posologia e outras informações importantes.

Na pesquisa foi perguntado aos entrevistados: “Você sempre lê as bulas dos remédios que consome?”. As respostas estão equilibradas, pendendo para o Sim (53,9%). Os extremos ficam para as capitais de São Paulo (78,2% disseram Não) e Rio de Janeiro (62,4% disseram Não). Do outro lado estão Belém, no Pará (76,8% disseram Sim), e Fortaleza, no Ceará (74% disseram Sim). 
“Ao cruzarmos os dados fornecidos pelo ICTQ com a Pesquisa Demografia Médica no Brasil (Conselho Federal de Medicina – 2013), podemos verificar que os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo estão entres os três entes federativos de maior concentração de médicos do País, ocupando, respectivamente, o segundo e o terceiro lugares, atrás apenas do Distrito Federal”, fala o professor do ICTQ e farmacêutico, Leonardo Doro Pires.

Diante disso, Pires afirma que nas regiões onde existe maior disponibilidade desses profissionais da saúde e, consequentemente, maior acesso aos serviços médicos, o hábito de leitura da bula é menor, o que pode indicar a possibilidade de que nesses Estados os usuários conseguem, de alguma forma, acessar as informações básicas sobre a medicação em contato direto com os prescritores. Já o Pará e o Ceará estão entre os sete que possuem menor concentração de médicos per capita no País, sendo o Pará o penúltimo colocado, gerando indícios de que o hábito de leitura das bulas pode ter alguma correlação com a carência de acesso a serviços de saúde, levando ao desenvolvimento de hábitos de automedicação.

Para o diretor de Pesquisa do ICTQ, Marcus Vinicius de Andrade, é fundamental entender o papel do farmacêutico nesse processo, pois ele é o profissional da saúde que consegue ter contato com o paciente no momento da aquisição do medicamento. “A relevância desse estudo se dá porque o serviço de atenção farmacêutica tornou-se uma importante ferramenta de conscientização sobre o uso racional de medicamentos e de melhoria da qualidade de vida do paciente. A leitura e compreensão da bula é parte desse processo e deve ser incentivada”, fala o executivo.

Segundo pesquisas promovidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a bula é dirigida a dois tipos de leitores – o profissional de saúde e o paciente – e em ambos os casos ela apresenta problemas. A bula dirigida aos profissionais de saúde tem falhas em relação a pouca informação do conteúdo. Por outro lado, na bula dirigida ao paciente (o leigo) identificam-se problemas que dificultam a sua leitura e compreensão, principalmente com relação ao tamanho da letra (muito pequeno), ao excesso de informação e de termos técnicos, frases longas, complexas e confusas, excesso de nominalização e uso predominante da voz passiva. Por conta disso o presidente do Conselho Científico do ICTQ e ex-presidente da Anvisa, Dirceu Raposo de Mello, em sua gestão à frente da Agência criou o Guia de Redação de Bula (2009). O documento padroniza de forma ampla as regras de redação de todo o conteúdo das bulas, e deve ser seguido pelas indústrias farmacêuticas no momento de sua confecção.

No cerne da orientação da Agência reguladora, pode-se verificar que as bulas devem conter impreterivelmente dois tópicos: bula para o paciente e para o profissional de saúde. Isso deixa claro que a Anvisa entende que tanto o paciente quanto o profissional da saúde devem ler, cuidadosamente, o documento pertinente ao medicamento que está sendo receitado ou dispensado. Para Pires, o farmacêutico deve atuar como incentivador da prática dessa leitura por parte dos usuários, fomentando, assim, o uso racional de medicamentos.

Falta de tempo

O estudo do ICTQ mostra ainda que, dos que não leem a bula, a falta de tempo foi a justificativa de maior índice (38,1%). Como São Paulo e Rio de Janeiro foram os maiores índices na resposta que não lê a bula, conclui-se que a vida agitada da população nessas grandes metrópoles influencia, de maneira negativa, na obtenção de informações detalhadas sobre os medicamentos consumidos. Para Pires, essa pesquisa reforça a importância da oferta de serviços de atenção farmacêutica nos pontos de dispensação. O segundo lugar ficou para a justificativa de que os usuários não entendem o que está escrito na bula (23,9%), o que evidencia uma real necessidade de melhorar a linguagem presente nos documentos relativos ao medicamentos comercializados no Brasil, que trazem muitas vezes textos de cunho estritamente técnico, dificultando a compreensão por parte do usuário final.
De acordo com a professora titular e farmacêutica responsável pela Farmácia Escola da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti, a vida na cidade tem um ritmo frenético no qual o tempo é o fator limitante considerando a dificuldade que a população enfrenta quanto à locomoção e a outras situações que a cidade impõe. “Acredito que as pessoas em qualquer situação façam uma estimativa do tempo que demorará para realizar determinada atividade e, portanto, como a bula normalmente apresenta inúmeras informações, as pessoas acham que dispenderiam muito tempo na leitura. Já no Rio, a característica da população é mais descontraída e, com uma cidade que oferece tanta beleza, acredito que a população prefira utilizar o tempo em outras atividades”, comenta ela.

A especialista destaca, com relação às respostas de quem não entende o que está escrito na bula, que a educação em saúde é necessária e precisa ser intensificada. Normalmente, a população não tem informação sobre o malefício ou benefício dos medicamentos. A segurança do paciente tem sido uma tônica muito discutida em nível mundial e a educação em saúde da população é essencial para um desfecho terapêutico favorável porque o indivíduo tem responsabilidade no processo de recuperação da saúde. 
A professora acredita que a questão do entendimento do que está descrito em bula é importante para o usuário do medicamento fazer seu uso racional. “Certamente, o farmacêutico no momento da dispensação poderá fazer um ótimo trabalho na educação em saúde ao usuário de medicamento com as orientações necessárias para a utilização com segurança e efetividade, no esclarecimento das dúvidas em relação às orientações descritas em bula e evidenciando a responsabilidade do indivíduo no processo”, ressalta ela.

Já para Pires, entre o perfil daquelas pessoas que não leem a bula, os dados mais alarmantes da pesquisa estão entre os jovens (51%), seguidos dos adultos acima de 55 anos (49,7%). O fato de o jovem brasileiro se interessar pouco pela leitura das bulas demonstra a necessidade de conscientização sobre o uso racional de medicamentos nas escolas. No caso dos idosos, os dados são ainda mais preocupantes quando se correlaciona essa informação com o maior índice de politerapia medicamentosa observado nesse recorte populacional, podendo levar a maiores incidências de interações medicamentosas, muitas vezes já informadas nas bulas dos medicamentos.  

Em termos de escolaridade, as pessoas que possuem nível fundamental se destacaram por não lerem a bula (49,8%). O nível de renda da classe C também apresentou dados preocupantes (48,1%). Esses resultados mostram que o acesso à educação tem ligação direta com o uso racional de medicamentos e, consequentemente, com a busca por informações que podem diminuir os riscos inerentes ao consumo desses produtos. O baixo nível de escolaridade e a falta de acesso ao ensino de qualidade são fatores limitantes para a leitura e compreensão das informações presentes nas bulas, muitas vezes de difícil entendimento para o público geral.

Para a professora Maria Aparecida, as pessoas com escolaridade maior normalmente são mais exigentes e buscam dados para assegurar a utilização do bem adquirido. “As informações descritas em bula para as pessoas com menor índice de escolaridade tornam-se de difícil entendimento porque são dados que não fazem parte do cotidiano. Esses indivíduos, muitas vezes, não têm conhecimento do próprio corpo, o que poderá ser evidenciado a partir das perguntas realizadas aos Serviços de Atendimento ao Consumidor (SAC) das indústrias farmacêuticas, por exemplo”, alerta ela.

Outros motivos

O estudo aponta ainda que no quesito que indica o motivo pelo qual as pessoas não leem a bula, separado por perfil, há os seguintes destaques: homens e mulheres alegam não ter interesse em ler o documento, assim como as pessoas de 25 a 40 anos e os que cursam o ensino médio. “A falta de tempo é uma realidade para quem vive em metrópole. O período gasto no deslocamento torna-se um estresse diário e as pessoas selecionam as atividades a serem realizadas no curto tempo que lhes sobra e, certamente, ler a bula de medicamentos não é uma ação preferencial. A classe B tem um padrão mais elevado de vida e, muitas vezes, há conciliação de mais de uma fonte de renda para a manutenção do padrão, então, acredito que a rotina diária das inúmeras atividades que necessitam ser executadas é a prioridade”, comenta a farmacêutica.

Com o conhecimento das informações descritas o usuário tem um aprendizado mais amplo sobre as consequências do uso indevido de medicamentos, bem como situações importantíssimas relacionadas às possíveis interações medicamentosas e contraindicações. Para Maria Aparecida a administração errônea de medicamentos traz prejuízos tanto na esfera pessoal do usuário do medicamento quanto ao sistema público de saúde, considerando que os recursos são escassos e várias situações na administração correta de medicamentos evitariam o ônus público em saúde, como as inúmeras interações que ocorrem devido ao uso irracional de medicamentos.

“Todos nós, da área da saúde, temos um papel de relevância na educação. O medicamento tem de estar vinculado à educação em saúde para a segurança de todos e, como consequência, para a diminuição dos gastos envolvidos”, fala a professora.
Para Pires, no Brasil, criou-se o hábito de banalizar o consumo de medicamentos isentos de prescrição médica (MIPs), levando ao conceito, totalmente equivocado, de que esses produtos não possuem reações adversas ou não podem oferecer riscos aos usuários. Erros comuns como superdosagens, subdosagens, associações não indicadas e armazenagem inadequada de medicamentos poderiam ser evitados caso os usuários realmente avaliassem as informações referentes aos medicamentos que estão utilizando. “Cabe ao farmacêutico combater a automedicação e, no dia a dia da sua atuação profissional, buscar formas de conscientizar a população da importância da leitura da bula, como instrumento de fomento para o uso racional de medicamentos”, finaliza o farmacêutico. 

Fonte: http://www.guiadafarmacia.com.br/

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